Yuru-chara: como os mascotes japoneses viraram fenômeno de marketing e turismo

yuru-chara: como os mascotes japoneses viraram fenômeno de marketing e turismo

Kumamon, Funassyi e Myaku-Myaku são alguns dos nomes que circulam com frequência no Japão e nas redes sociais japonesas. Eles fazem parte do universo dos yuru-chara (ゆるキャラ), abreviação de “yurui mascot character” (ゆるいマスコットキャラクター), ou mascote “descontraído”. Esses personagens costumam ser usados em relações públicas e marketing para promover empresas, organizações e até regiões do país.

O uso de mascotes promocionais no Japão começou a se popularizar nos anos 1980, quando o país sediou uma série de exposições ao longo da década. Mas o termo yuru-chara só surgiu em 2000, criado pelo escritor e mangaká Jun Miura. Nos anos seguintes, esses personagens ganharam espaço crescente em materiais promocionais do dia a dia.

A relevância se firmou especialmente para cidades e regiões japonesas. Os mascotes que representam áreas específicas são chamados de gotōchi-chara (ご当地キャラ), ou personagens locais. Até departamentos de polícia têm seus yuru-chara, como o Pipo-kun, da Polícia Metropolitana de Tóquio, frequentemente estampado em cartazes nos kōban, os pequenos postos policiais espalhados pela cidade.

Hikonyan e o início do boom

A popularidade recente dos yuru-chara começou no fim dos anos 2000 com Hikonyan. O gato branco é o mascote oficial da cidade de Hikone, na província de Shiga, e foi criado para celebrar os 400 anos do Castelo de Hikone. Sua fama se consolidou quando venceu a primeira edição do Yuru-Chara Grand Prix, em 2010 — mesmo ano em que Kumamoto apresentou outro personagem muito querido: Kumamon.

Como mascote oficial de Kumamoto, Kumamon é um dos yuru-chara mais reconhecíveis no Japão e no exterior. Foi criado originalmente para ajudar a promover o turismo na região, e a estratégia de divulgação por trás do personagem o tornou imensamente conhecido em todo o país. Com Hikonyan e Kumamon ganhando cada vez mais reconhecimento, o boom dos yuru-chara decolou, e outras localidades e empresas passaram a usá-los em marketing.

Depois de Hikonyan, Kumamon ficou em primeiro lugar no Yuru-Chara Grand Prix de 2011. Desde então, centenas de yuru-chara entraram na competição para promover suas localidades ou organizações.

O Grand Prix e a era Yuruverse

Entre 2010 e 2020, o Yuru-Chara Grand Prix aconteceu todos os anos e se tornou um evento bastante aguardado, tanto pelos personagens quanto por fãs e governos locais. A competição em si não oferecia prêmio em dinheiro, mas os vencedores ganhavam muita popularidade e frequentemente atraíam oportunidades econômicas e de licenciamento.

Após 2020, o concurso teve uma pausa de três anos e foi reformulado como competição Yuruverse quando voltou, em 2023.

Lore, treinamento e atuação

Vencer o Yuru-Chara Grand Prix exige muitos votos, mas outros fatores entram em jogo. Yuru-chara também precisam de lore: uma história de fundo interessante pode chamar a atenção de pessoas fora da região de origem do mascote. E, para serem fofos além do design, as pessoas dentro da fantasia podem passar por treinamento ou workshops.

Isso não é obrigatório, mas há formas de atuação física necessárias para agradar públicos mais jovens ou se comunicar, já que a maioria dos yuru-chara não fala. Existem escolas e programas especiais de treinamento para mascotes, que ensinam quem veste a fantasia a se mover e agir para dar personalidade ao personagem.

Nem sempre há vínculo oficial

Isso não é exigido de todos os intérpretes. Na verdade, nem mesmo o vínculo oficial com uma localidade ou empresa é sempre necessário para que um yuru-chara exista. A fada-pera Funassyi, por exemplo, não foi criada pelo governo da cidade de Funabashi. O personagem surgiu por iniciativa de um cidadão anônimo, que chegou a oferecê-lo ao governo local antes de se tornar independente.

Quando Funassyi começou suas atividades, os movimentos energéticos e a forma de falar do personagem agradaram tanta gente que ele se tornou incrivelmente famoso em todo o Japão. Há também diversos yuru-chara enviados por pessoas comuns por meio de concursos oficiais para grandes eventos.

Na Expo ’85, realizada em Tsukuba, a organização promoveu um concurso nacional de design de mascote. A inscrição de um estudante do ensino fundamental venceu, e o mascote do evento se tornou Cosmo Hoshimaru. Grandes eventos continuaram a realizar concursos para escolher designs de personagens, como a Olimpíada de Tóquio 2020 e a Expo Mundial 2025.

Do palco local ao digital

Com o crescimento da base de fãs, yuru-chara e outros mascotes também cruzaram para o mundo digital. De grupos de idols a VTubers, o uso de mascotes se tornou mais comum para atrair fãs e produzir mercadorias. Os yuru-chara também passaram a fazer suas próprias transmissões e outras atividades online, sem se limitar a eventos locais.

O papel em marketing e relações públicas é evidente, mas o apelo junto aos fãs abriu um mercado de produtos como colaborações com empresas locais e souvenires com o personagem na embalagem. Yuru-chara amplamente reconhecidos podem até ter itens em redes nacionais ou receber propostas para outros produtos, como o photobook recém-publicado de Myaku-Myaku.

O mundo dos yuru-chara não é apenas um exemplo de como personagens fofos funcionam em relações públicas. Esses personagens se tornaram uma enorme força econômica para várias regiões do Japão. Outros se transformaram no rosto de suas organizações, e ser reconhecido significa que as pessoas sabem o que eles representam.

Para quem visita o Japão, vale ficar atento aos diferentes yuru-chara. Conhecer um novo lugar a partir da lore do personagem ou levar para casa um souvenire único que apoia a economia local são formas de entrar nesse universo.

Fonte da notícia: otakumode.com

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