A empresa israelense Discover-Tech é suspeita de usar leilões de publicidade digital para rastrear usuários da Starlink em dezenas de países. A informação foi revelada em reportagem publicada pela agência Reuters nesta terça-feira (27), com base em relatos de seis fontes e relatórios de empresas de segurança cibernética.
Pesquisadores da TrendAI, uma divisão da Trend Micro, associaram a companhia a uma atividade publicitária considerada suspeita. Em relatório público divulgado no dia 15 de outubro, o operador responsável pela ação recebeu o codinome Shadow-Earth-79.
As análises apontam que o operador liderava os lances vencedores para exibir anúncios em conexões da internet por satélite em 105 países. O Brasil está incluído na lista das nações onde essa atividade foi detectada.
Como anúncios digitais são usados para o rastreamento
O mecanismo explorado pela empresa utiliza a própria estrutura de funcionamento da publicidade na internet. Toda vez que uma pessoa acessa um site ou aplicativo que exibe anúncios, sistemas automatizados realizam leilões em milissegundos para escolher qual propaganda será mostrada na tela.
Para definir o valor dos lances, essas plataformas compartilham dados sobre o visitante e seu aparelho antes mesmo da exibição da propaganda. As informações coletadas durante esse processo incluem:
- Endereço de IP: número que identifica a conexão de internet utilizada no momento;
- Identificadores publicitários: códigos do dispositivo usados para direcionar propagandas;
- Características do aparelho: dados sobre o modelo e o sistema operacional;
- Localização estimada: posição geográfica inferida a partir dos dados da rede.
Uma investigação separada feita pela empresa Confiant indicou que a Discover-Tech combinava endereços IP, cookies de navegação e identificadores de anúncios. Esse cruzamento permite ligar múltiplos acessos ao mesmo aparelho e montar perfis detalhados de comportamento digital.
A coleta de dados acontece no momento em que a publicidade é carregada, sem a necessidade de que o usuário clique no anúncio. A Confiant também encontrou propagandas da empresa em redes mantidas por governos e organizações sensíveis.
Por que clientes da Starlink viraram alvo da operação
No caso das conexões da Starlink, operada pela SpaceX, o interesse da empresa focava em endereços IP vinculados ao serviço de satélite. A TrendAI ressalta que a localização obtida por meio desses IPs apresenta margem de erro.
A internet via satélite é muito utilizada em regiões isoladas ou em zonas de conflito onde as redes terrestres foram danificadas. Por essa razão, identificar quem utiliza o serviço possui valor para operações de inteligência e monitoramento.
A TrendAI identificou grande volume de compra de anúncios pelo operador em países que enfrentam conflitos, incluindo:
- Síria;
- Líbia;
- Iêmen;
- Sudão do Sul.
Com grau de confiança classificado entre moderado e alto, os especialistas avaliaram que os padrões de compra e a infraestrutura identificada coincidem com o funcionamento de uma plataforma voltada para o rastreamento de usuários e coleta de inteligência.
Uso de programas espiões e bloqueio pelo Google
Uma apuração realizada pelo Citizen Lab, da Universidade de Toronto, vinculou os anúncios comprados pela Discover-Tech à disseminação de um programa espião criado pela empresa Candiru. O software foi utilizado em ataques contra a emissora Al Jazeera nos anos de 2024 e 2025, atingindo pelo menos 45 dispositivos.
A invasão utilizava a técnica conhecida como zero-click (sem clique). Nesse formato, o simples carregamento da peça publicitária dispara uma sequência de exploração de falhas que infecta o aparelho sem que a vítima precise clicar em nada.
Apesar da confirmação desse método contra a emissora de notícias, o Citizen Lab pontuou que não é possível afirmar se a técnica com programa espião também foi aplicada contra os clientes do serviço via satélite.
Diante do cenário, o Google tomou providências no início de outubro. A gigante de tecnologia removeu a Discover-Tech do seu cadastro de fornecedores e bloqueou o acesso da empresa aos leilões de publicidade de suas plataformas.
O que esperar dos desdobramentos do caso
A apuração sobre a extensão do monitoramento realizado pelo operador Shadow-Earth-79 segue em andamento por especialistas em segurança digital. As empresas envolvidas no caso ainda não detalharam medidas adicionais.
Procurados pela reportagem da Reuters, a Discover-Tech, seu presidente-executivo e a SpaceX não enviaram respostas aos pedidos de comentário sobre as investigações.
Fonte original: Canaltech. Consulte a publicação original para contexto e atualizações.
